domingo, 2 de novembro de 2008

A Mensagem de "Mensagem"

A poesia é um caminho que nos leva aos destinos mais estonteantes...



Fernando Pessoa é um poeta badalado, seja por sua versatilidade, seja pela multiplicidade de temas que sua obra trata. Desaponta-se o leitor que for procurar em Pessoa um poeta de estilo, ele é o poeta dos estilos, sua genialidade obrigou-o a dividir sua vida, seu espírito e sua obra. As biografias de Ricardo Reis, Álvaro de Campos e outros tantos seus heterônimos são pedaços de um Fernando Pessoa místico e tão imenso que não cabia em si. É isso que o torna um mestre comparável apenas a Camões e, aqui entre nós, com uma sensibilidade que Camões nenhum sonhou ter.

E é desse mestre que venho falar, mas não é do mestre de "Tabacaria", nem do "Poema em linha reta", nem da "Canção do Desassossego" , mas do mestre de "Mensagem". Apesar de todo alarde feito em torno da obra desse gênio da literatura, percebo um certo descaso com essa que é um colosso da língua portuguesa. O recado trazido por esse pequeno livro é tão imenso que transpassa o tempo e acaba por se adequar a toda e qualquer situação de nosso dia-a-dia. Se os títulos pomposos induzem o leitor a achar que está diante de uma narração dos feitos heróicos portugueses, adentrar no texto é estar diante de sua própria vida. Não há mais naus nem heróis romanos, mas há desafios cotidianos e pessoas comuns que a cada dia vencem batalhas e cruzam mares infindos. Vejam esses versos:

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

III - As Quinas
Segunda Parte | Mar Português

Não há palavras para traduzir a beleza desses versos, principalmente quando me vem na lembrança a voz do mestre Lourival Holanda a recitá-los (bons dias do curso de letras!). O que é o homem sem a loucura? Sim, somos todos loucos, sonhadores, criamos nossos devaneios para abrandar a armagura da vida. Cada um de nós guarda em si um Dom Sebastião, ávido por glórias e por conquistas. É isso que Mensagem vem nos dizer. Mesmo que mais discrepantes sejam as leituras, um eixo central estará presente nas interpretações: o homem pode (e deve!) romper seus limites e mostrar-se triunfante.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Segunda Parte | Possessio Maris

Mensagem é cotidianamente místico e irresistível mesmo no primeiro olhar. É um Fernando Pessoa que se distancia do tom naturalístico de Alberto Caeiro e do pessimismo irônico de Álvaro de Campos, que canta as glórias passadas de uma nação decadente, mas que também canta o espírito das pessoas, fazendo com que elas nunca se esqueçam de seus objetivos e que nunca desistam. Mensagem é uma glorificação à vida, mas sem o exagero dos romanticos; é uma obra que magnifica os feitios humanos e visa acender a chama no peito de todos e acordar os D. Henriques dentro de nós, dos grandes heróis que são o tudo que não é nada, mas que são a guia para um grande homem.

O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O porfazer é só com Deus.

E ao imenso e possivel oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

Segunda Parte | Possessio Maris

Muito mais que recomendado, obrigatório!



Um comentário:

Amanda disse...

Fernando Pessoa talvez seja o maior poeta de lingua portuguesa. Considero-o mais que camões também, mesmo que ele tenha menos repercussão.